Viagens de um a três meses ficam numa zona intermédia: tempo suficiente para “pequenos problemas” virarem despesas grandes (uma infeção urinária teimosa, uma enxaqueca que exige medicação, ou uma receita que já não dá para renovar), mas curtas o bastante para muita gente viajar com mentalidade leve e uma lista mínima. Se estiver a trabalhar remotamente e a mudar de cidade com frequência, os riscos raramente são dramáticos — são práticos. O objetivo de um plano de apoio médico é simples: saber a quem ligar, o que está coberto e o que pode levar com segurança, antes de acontecer alguma coisa.
Comece por separar dois tipos de cobertura que muitas vezes aparecem misturados: “proteção de viagem” (cancelamentos, bagagem perdida) e “assistência médica em viagem” (tratamento no estrangeiro). Para uma estadia de 30–90 dias, a parte médica costuma ser a que realmente evita contas elevadas. Procure termos claros sobre urgências, internamento, exames de imagem e repatriamento. Se for passar por vários países, confirme se a apólice mantém cobertura contínua pelas datas contratadas ou se cada passagem de fronteira é tratada como uma “nova viagem”.
Depois, verifique as áreas que muitas mulheres acabam por usar na prática. Dentista é um ponto sensível: algumas apólices cobrem apenas urgência dentária (alívio de dor e infeção), não reparações. Saúde mental é outra zona cinzenta: muitos seguros excluem acompanhamento contínuo, enquanto outros oferecem um número limitado de sessões após um evento agudo. Se a terapia puder ser relevante durante a viagem, confirme se está incluída, se tem de ser organizada pela linha de assistência e se existe limite por sessões ou por valor.
Por fim, seja realista sobre atividades. Há apólices com definições de “desportos” ou “atividades de risco” que podem excluir coisas banais, como caminhadas em altitude, mergulho, uso de mota/scooter, surf ou participação em eventos desportivos. Se a sua rotina inclui ginásio de escalada, aulas de surf, fins de semana de neve ou deslocações de scooter, leia a lista de atividades e adquira o extra, em vez de apostar que o sinistro será aceite.
Confirme a franquia (excesso) e como funcionam os reembolsos. Um prémio mais baixo com franquia alta pode ser aceitável, mas apenas se conseguir pagar a primeira parte de qualquer conta sem stress. Procure também referências a “pagamento direto”: em muitos destinos, terá de pagar primeiro e pedir reembolso depois. Quando existe pagamento direto, normalmente só funciona se ligar para a assistência antes de procurar cuidados (exceto em emergência real).
Leia com atenção a secção de condições pré-existentes, mesmo que se sinta bem. Muitas apólices consideram pré-existente qualquer condição que tenha exigido medicação, vigilância ou tratamento num período de análise — e isso pode incluir enxaquecas, asma, depressão/ansiedade, endometriose, problemas da tiroide ou infeções urinárias recorrentes. Alguns seguros aceitam cobrir condições estáveis mediante declaração e custo adicional; outros excluem tudo o que se relacione com elas. Na prática, este parágrafo decide se uma despesa será paga ou recusada.
Garanta que o seguro encaixa no seu estilo de viagem. Se faz paragens curtas e frequentes, verifique se a apólice exige residência no seu país no início do contrato e se há regras sobre “regressos a casa”. Para itinerários flexíveis, prefira cobertura que não penalize mudanças de planos — e guarde os números de emergência offline, não apenas num e-mail.
A telemedicina tornou-se uma peça normal do apoio em viagem: ajuda na triagem, renovações de receitas quando permitido, infeções de pele, viroses gastrointestinais, dúvidas sobre contraceção e decisões do tipo “preciso de urgência agora?”. Algumas apólices incluem teleconsulta como serviço integrado; outras só reembolsam consultas remotas se forem aprovadas previamente. Em ambos os casos, vale a pena preparar tudo antes de partir: instale a aplicação (se existir), teste o acesso e confirme os países onde o serviço está disponível.
Pense em fusos horários e ligação à internet. Numa viagem de 30–90 dias, é provável que precise de pelo menos uma consulta não urgente — uma renovação, um agravamento de algo crónico ou uma revisão após um incidente menor. Escolha um ponto de referência consistente: o seu médico habitual (se disponibilizar consultas remotas) ou a linha clínica do seguro, e defina quem faz o seguimento se os sintomas não melhorarem. Isto evita o padrão stressante de falar com profissionais diferentes a cada mudança de cidade.
Use a telemedicina para escalar com inteligência, não apenas para “ficar descansada”. Um bom clínico remoto ajuda a identificar sinais de alarme, a escolher opções sem receita compatíveis com a sua medicação e a decidir entre farmácia, cuidados urgentes ou serviço de emergência. No terreno, isto poupa tempo e dinheiro — e reduz o risco de entrar no segmento errado do sistema de saúde num país desconhecido.
Crie um ficheiro curto com “essenciais médicos” para acesso rápido. Mantenha-o simples para conseguir atualizá-lo: diagnósticos relevantes, alergias, medicamentos atuais (com doses), contactos de emergência e dispositivos implantados, se existirem. Se viajar com medicamentos sujeitos a controlo mais apertado, inclua uma foto da receita e, idealmente, uma carta do médico com o nome do medicamento, dose e motivo de uso.
Pense no que partilha e onde guarda. Evite enviar históricos completos por Wi-Fi inseguro ou em anexos sem proteção. Uma abordagem prática é manter documentos num local seguro (com palavra-passe) e partilhar apenas o que é necessário para o problema em causa. Se tiver de mostrar documentação numa farmácia ou numa fronteira, ter fotos claras no telemóvel (e os originais na bagagem) costuma ser mais eficiente do que procurar e-mails.
Backups valem mais do que perfeição. Tenha pelo menos uma opção offline: uma folha impressa com resumo ou um PDF guardado que não dependa de internet. Se perder o telemóvel, falhar o plano de dados ou não conseguir entrar numa aplicação, continuará a precisar de comunicar depressa — sobretudo em contexto de urgência.

Com medicamentos sujeitos a receita, assuma duas verdades: as regras mudam consoante o destino e “comum em casa” não significa “permitido em todo o lado”. Alguns países restringem certos princípios ativos, dosagens ou quantidades, e substâncias controladas podem exigir mais documentação. A base mais segura é viajar com os medicamentos na embalagem original com rótulo, levar cópia da receita e transportar quantidade suficiente para toda a viagem, com uma margem para atrasos — sempre na bagagem de mão.
Se toma algo que possa ser considerado controlado (alguns analgésicos fortes, hipnóticos, medicação para TDAH, certos ansiolíticos), faça verificação extra. Muitas autoridades limitam a quantidade e exigem prova de necessidade. Para um itinerário de 30–90 dias, é sensato pedir ao seu médico uma carta com o nome genérico, a dose, as datas de viagem e a indicação de uso pessoal. Se cruzar várias fronteiras, confirme as regras de cada país — e prepare-se para cumprir o destino mais restritivo.
Planeie o cenário de reposição antes de precisar dele. Se depende de contraceção hormonal, medicação para enxaquecas, inaladores, hormonas tiroideias, antidepressivos ou qualquer fármaco em que a interrupção seja um risco, defina como reagiria a uma perda: quem pode enviar substituição, se a teleconsulta do seguro pode emitir receita local quando permitido e onde existe uma farmácia fiável nas cidades por onde vai passar. Mesmo com regras europeias de prescrição transfronteiriça, é comum ter de pagar no momento e tratar do reembolso depois.
O kit mínimo serve para dor, problemas gastrointestinais, pequenas feridas e prevenção. Um conjunto sensato inclui: pensos rápidos de vários tamanhos, tratamento para bolhas, toalhetes antissépticos, uma ligadura pequena, pinça, termómetro digital, sais de reidratação oral, um antidiarreico, um anti-histamínico e um analgésico que já saiba que tolera bem. Acrescente itens pessoais que são chatos de substituir fora (por exemplo, produtos menstruais específicos se tiver preferência).
Adapte com base no que costuma acontecer quando muda de rotina. Se tem tendência para infeções urinárias, leve o que o seu médico recomenda e saiba quando precisa de avaliação médica (febre, dor lombar, gravidez, sintomas persistentes). Se costuma ter candidíase após antibióticos ou stress, leve um tratamento apropriado e evite “adivinhar” com produtos aleatórios em farmácias desconhecidas. Se sofre de enxaquecas, leve a medicação que funciona e um plano de apoio: hidratação, eletrólitos e forma de reduzir luz.
O kit de condições crónicas é sobre continuidade. Leve toda a medicação regular para o período completo, com margem para imprevistos, e divida entre duas malas para não depender de uma só. Mantenha uma lista escrita com nomes genéricos (as marcas mudam por país) e inclua consumíveis difíceis de encontrar: espaçadores de inalador, material de monitorização, autoinjetores de adrenalina, meias de compressão ou tratamentos tópicos. Não é levar mais — é evitar improviso sob pressão.